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Livro X Filme: Como eu era antes de você

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Como acho que já disse anteriormente, eu havia lido o livro pela primeira vez há bastante tempo, e ele tornou-se um de meus preferidos. Em consequência, Lou é uma das personagens literárias que mais gosto, por isso meu temor quando soube que haveria uma adaptação do romance para o cinema, principalmente porque tenho minhas reservas com relação ao talento da atriz Emilia Clarke (me desculpem fãs!).

Assisti ao filme uma semana depois da estreia e já tendo passado toda a comoção. Li muitas críticas, evitando algumas para não perder o efeito surpresa, e por fim, após finalmente ir ao cinema preciso reafirmar aquele velho lema de que “o livro é sempre melhor que o filme”.

Não quero falar mal do filme, muito pelo contrário, ele me agradou bastante – com destaque para a atuação de Sam Claflin, afinal não deve ser fácil atuar na pele de um tetraplégico tão cheio de nuances e temperamento como é o personagem de Will Traynor. Mas a adaptação do roteiro infelizmente deixou a desejar. Algumas tramas importantes do livro, em minha opinião, foram pouco ou não abordadas: a forma como Lou é sempre desmerecida pela família perante a irmã mais inteligente; a própria Treena que é tão citada no livro teve poucas aparições no filme; o desemprego do pai de Lou, que joga sobre a personagem a responsabilidade financeira da família, a relação de Lou e Patrick (destaque para Matthew Lewis, ex Neville Longbotton da saga Harry Potter) que é bem mais complexa, com muitos abusos psicológicos por parte do namorado – e seu término acaba causando os problemas judiciais e a repercussão na imprensa sobre a morte de Will (também não abordados); a infidelidade do Sr. Traynor (Charles Dance, interprete de Tywin em Game of Thrones); a relação conflituosa entre o casal Traynor e como o marido recusa-se a encarar o desejo do filho (algo que foi completamente invertido no filme); e, principalmente, o estupro de Lou e como ele afeta sua personalidade, e até mesmo a forma de se vestir da personagem.

A exclusão de alguns personagens é algo comum em adaptações para o cinema, mas neste caso me incomodou. Os questionamentos feitos pela irmã de Will e a forma como a menina julga Lou, a presença da amante do Sr. Traynor como personificação de sua infidelidade e até mesmo uma melhor explicação sobre a debilitada saúde do avô de Louisa e a relação com ele, deixaram algumas lacunas que, para o expectador que ainda não havia lido o livro, ficaram abertas e mal explicadas. A relação entre Lou e Camilla – cujos diálogos eram muitas vezes necessários para que o desejo de Will seja compreendido – também foi pouco explorada, e a transição da relação entre Lou e Will, feita de forma brusca, não demonstrando a crescente confiança e cumplicidade que é construída entre os dois.

Concluindo, em geral a relação de amor entre os personagens foi muito focada e outros pontos relevantes, ignorados. Talvez fosse necessária mais meia hora de filme para que este romance, tão rico de detalhes e sentimentos, fosse contado de forma mais fiel e completa (mesmo que alguns diálogos do livro tenham sido reproduzidos integralmente). Mas, Como eu era antes de você não deixa de ser um filme agradável, com toques de humor e cenas emocionantes – que ressalto: não atingem o nível do livro e nem emocionam como tal.

Para quem quiser conferir, ele está em cartaz nos principais cinemas de todo o país.

Ps. Eu estava certa em ter medo da atuação de Emilia Clarke; a cena em que ela e Will discutem nas Ilhas Maurício (aliás, algo que também não foi abordado no filme) foi difícil de assistir. Alguém precisa contar pra essa moça que mexer loucamente as sobrancelhas não significa expressar tristeza ou desespero.

 

Resenha: Como Eu era antes de Você, Jojo Moyes

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RESENHA CRÍTICA – CONTÉM FATOS IMPORTANTES DA HISTÓRIA:

Já no Prólogo do livro, o leitor fica a par dos fatos que levam ao atropelamento de Will, causando sua tetraplegia. É impossível não atentar-se para a ironia do acidente: o personagem é atropelado pelo mesmo transporte que desiste de usar minutos antes, pois, devido ao mau tempo, considera imprudência. Nesta única narrativa feita por Will, ficam perceptíveis o seu gosto por esportes radicais, sua arrogância e seu sucesso nos negócios.

A história (com algumas exceções) é narrada por Lou, moradora de uma pequena cidade turística da Inglaterra, que aos 26 anos acaba de perder o modesto emprego que amava. Possui uma forma excêntrica de se vestir e namora Patrick, há seis anos.

A família de Lou é humilde e bastante confusa; mesmo com os perceptíveis laços de ternura, a personagem é sempre desmerecida por seus familiares. A irmã de Lou, Treena, é considerada a “estrela” da casa, mesmo deixando a faculdade devido a uma gravidez inesperada. Lou é severamente criticada por todos todo o tempo, seja por sua inteligência ou tipo físico, e fica claro que ninguém espera algo produtivo dela – mesmo ela sendo responsável por grande parte das finanças que mantém a casa.

Após tentativas desastrosas em outros empregos, e mesmo sem experiência, Lou aceita o trabalho de cuidadora pelo período de seis meses na casa dos Traynor, família de Will. Inicialmente, a personagem enfrenta a clara resistência do paciente, que age agressivamente com todos a sua volta, numa clara demonstração de insatisfação com sua nova condição. Mesmo infeliz Lou persiste no trabalho, pois ele se torna a única fonte de renda de sua família.

Inicialmente, Lou não entende seu papel na dinâmica que envolve Will e tenta sempre agradá-lo e aproximar-se do mesmo, embora sem sucesso. Até que um dia, já insatisfeita com o trabalho, reage de forma explosiva após uma grosseria do rapaz, que modifica sua postura, passando a respeitá-la (é nítido que o personagem não aguenta mais falsas amabilidades devido à sua condição). A partir daí, o desenvolvimento da relação entre os dois tem seu início.

Ao longo das semanas, Lou vai tomando conhecimento dos dramas familiares dos Traynor e de acontecimentos anteriores à sua chegada. Ela acaba simpatizando-se por Will e seu dramático estado de saúde; até que por um descuido, descobre o desejo do personagem de ir para a clínica Dignitas, um local onde são realizados suicídios assistidos. Tal desejo induz a personagem a fazer questionamentos pessoais e morais, levando-a a desistir momentaneamente do emprego. Neste ponto do enredo, ficam claras as mudanças comportamentais da personagem que, incentivada por Will, passa a ter autoconfiança e a demonstrar suas insatisfações.

É fundamental o capítulo narrado por Camilla Traynor, pois é nele que a autora deixa o leitor a par da dinâmica familiar antes e depois o acidente de Will – o casamento já fracassado, a infidelidade do pai e consequente insensibilidade da mãe – o que contribui para um melhor entendimento dos envolvidos na trama. É também no relato de Camilla, que o amor da mãe pelo filho fica evidente e compreende-se sua decisão – ainda que relutante – em apoiá-lo a morrer.

Após ter conhecimento do desejo de Will, Lou compreende então a motivação de sua contratação, e retorna ao emprego tendo como missão pessoal persuadi-lo a desistir da ideia. Seu objetivo é mostrar como a vida pode ser agradável e merece ser vivida, mesmo com as limitações pertinentes à tetraplegia. Durante a execução do “plano”, cada vez mais íntimos, os dois acabam se envolvendo emocionalmente.

Diante do visível sentimento que surge entre cuidadora e paciente, o então indiferente namorado de Lou passa a demonstrar algum interesse e até mesmo ciúme. À medida que a historia avança e a relação entre eles chega ao fim, fica claro que Patrick – uma pessoa de caráter duvidoso, egoísta e extremamente vaidoso – não sentia falta da namorada. Ele estava apenas com o orgulho ferido de supostamente perdê-la para alguém que considera pior que si próprio. Para ele, isso seria uma derrota. Lou também já não nutria sentimentos ou tinha assuntos em comum com Patrick, ou seja, era um relacionamento onde ambos estavam acomodados.

A partir daí, os capítulos narrados pelos outros personagens envolvidos na trama de Will desenham para o leitor as mudanças no caráter da relação entre ele e Lou, e também no comportamento de cada um. Lou torna-se mais segura e determinada, enquanto Will parece mais feliz.

Durante a viagem para as Ilhas Mauricio – a mais ousada “aventura” de Lou – Will deixa claro que não desistirá da eutanásia. Para ele, até mesmo o amor de Lou era um lembrete do homem que ele foi e não seria mais, de tudo que gostaria de fazer e não poderia. Seu sofrimento e incômodos físicos cada vez maiores eram proporcionais à vontade de findá-los, e isto era soberano perante qualquer outro sentimento ou desejo. Fica claro que Lou foi um sopro de felicidade na vida de Will, mas nada seria capaz de fazê-lo mudar de ideia. Diante de todas as suas incapacidades, sua própria morte era a única coisa sobre a qual ainda tinha controle, e este era seu único conforto.

Diante disto, Lou fica frustrada e encara a decisão de Will como um fracasso pessoal, não conseguindo suportar a situação. Completamente abalada, distancia-se completamente dos Traynor, até a véspera da morte, quando a mãe de Will implora por sua presença. E mesmo contra a vontade da própria mãe, Lou atende ao chamado.

Após a morte de Will, através de um relatório jurídico (uma estratégia utilizada com êxito pela escritora), o leitor fica ciente das dificuldades e acusações enfrentadas pelos familiares e cuidadores do personagem. Fica claro que, para os que não estavam diretamente envolvidas com o drama, a decisão de Will é inadmissível. Já no fim do livro, no epílogo, o leitor acompanha Lou seguindo as instruções da carta deixada por Will; ele constrói uma base de autoconfiança para Lou seguir em frente em vida e após sua morte, deixa as ferramentas para que ela possa fazê-lo, mudando definitivamente a personalidade e o destino da personagem.

Concluindo, Como eu era Antes de você, é um livro que aborda temas muito complexos como eutanásia e diferentes tipos de abuso, mas também traz o amor pelo próximo como “conector” de toda a trama, algo característico dos livros da autora Jojo Moyes. Se existe alguma mensagem implícita na história, seria a de que amar significa abdicar das próprias vontades em benefício do outro, seja ele seu filho, amante, irmã ou pais.

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Opinião pessoal: Li o livro duas vezes; uma há bastante tempo atrás e outra agora para escrever a resenha. Emocionei-me em ambas. A história trata do mais puro amor, onde o que cativa o sentimento não é a beleza ou jovialidade e sim a essência do outro. Lou é uma de minhas personagens literárias favoritas, pois não é uma heroína perfeita, ela é testada a todo momento, comete erros e sua personalidade é construída ao longo da história. Sem dúvidas, um dos livros mais especiais que já li e com certeza está na lista dos meus preferidos.

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