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Sobre o Livro: Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

HP

Porque quando o livro é bom a gente lê em praticamente uma noite!

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada conseguiu saciar minha carência da saga, e acredito que de muitos fãs também! No começo achei estranho observar a escrita de J. K. Rowling em formato de peça, mas logo incorporamos o conceito.

O livro é bom, possui um ritmo excelente e com surpresas positivas e negativas e ao longo da trama. Positivamente gostei muito da forma com a qual os novos personagens interagiram e suas personalidades; negativamente o personagem do Harry em particular me decepcionou em vários momentos, e outro ponto que incomodou foram as inúmeras referências e retornos às histórias antigas – me pareceu que a escritora ainda está muito presa ao passado, ao que ela já escreveu.

Mas não é nada que tire o brilho do livro, e sinceramente, já torço para que ele também vire filme!

Obs: Post publicado no instagram @leitoradinamica em dez/2016

Resenha: O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, Ransom Riggs

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Esta é uma resenha crítica.

De acordo com a sinopse do livro, encontrada no site da editora Leya, O Orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares trata-se de “Uma fantasia arrepiante, ilustrada com assombrosas fotografias de época,… vai deliciar jovens, adultos e qualquer um que goste de uma aventura sombria”; porém, caso você tenha acompanhado o Leitora Dinâmica nas últimas semanas, percebeu a dificuldade que eu tive em finalizar esta leitura e minha teimosia em não abandoná-la. Mais uma vez, peço desculpas aos fãs da série, mas preciso expor minha sincera opinião.

O enredo conta com elementos interessantes, como: drama familiar, reverberações da 2ª Guerra Mundial, viagens no tempo, elementos de fantasia, romance juvenil, suspense, perseguições e fotos reais e curiosas. Com tudo isto, a expectativa ao iniciar a leitura é encontrar um enredo movimentado e instigante certo? Mas, infelizmente, isto não acontece.

O livro pode ser dividido “bruscamente” em duas partes: antes e depois do personagem principal, Jacob, chegar à Ilha. A primeira parte é composta por um ritmo tão lento, com detalhes insignificantes tão minuciosamente descritos, que a sensação é estar lendo em “looping”. Ao mesmo tempo, ganchos importantes na história, como os relacionamentos do protagonista com seus familiares e amigos, e até a personalidade do garoto, são descritos de forma superficial – com exceção da relação com o avô.

Durante a “primeira parte da história” eu pensei em desistir do livro diversas vezes; o enredo não despertou minha curiosidade e não criei empatia por nenhum personagem. Mas, muitos me disseram para insistir, que após a chegada de Jacob à Ilha, o ritmo seria outro. De fato o ritmo melhora, mas fica longe de prender a atenção; a escrita extremamente minuciosa do autor, confusa em muitos momentos devido à quantidade de detalhes, permanece.  E o elemento-surpresa em torno do psiquiatra de Jacob, mostra-se muito previsível cedo demais.

Alguns pontos críticos da história ficaram mal ou não explicados satisfatoriamente. O elemento-surpresa em torno do psiquiatra de Jacob mostra-se muito previsível cedo demais. A personagem da Srta. Peregrine, cujo nome está no título da obra, é pouco aprofundada, com suas aparições resumidas sempre a diálogos com Jacob, ou interações com outro grande número de personagens – não permitindo ao leitor construir uma imagem concreta da mesma (por mais que o autor dedicasse linhas e mais linhas à sua descrição física).

Terminei a leitura por teimosia e sem vontade alguma de ler os volumes seguintes – apesar do inteligente gancho ao fim da história. A obra tem seus pontos altos, claro, como as “peculiares” fotos de época (reais, por sinal) que amarram e ilustram todo o enredo. Uma estratégia muito criativa por parte do autor.

Por outro lado, acredito que o fator que mais tenha contribuído para minha insatisfação, tenha sido a dedicação de Riggs ao descrever muito detalhadamente caraterísticas físicas dos seus personagens e lugares nos quais a história se desenvolve, e pouca atenção à personalidade dos mesmos – o que não me permitiu criar vínculo nem com eles, nem com a história. Em muitos momentos minha sensação era de estar lendo uma história escrita para ser adaptado para os cinemas (o que aconteceu, aliás) algo que me incomodou bastante.

Gostaria de deixar claro que gosto do gênero, mas me agrada muito quanto consigo ter um envolvimento emocional com os personagens. Traçando um paralelo com Harry Potter, apesar da enorme – e necessária – descrição do lugar, casas e personagens da história, J. K. Rowling provoca diversas emoções no leitor. Torcemos por Harry, sentimos raiva seguida de compaixão por Snape e sofremos com o fim de Dumbledore. E isto se deve ao fato da autora não caracterizar os personagens apenas fisicamente, mas emocionalmente também, em toda sua glória e defeitos. Pessoalmente, O Orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares, deixou a desejar neste nível de complexidade e empatia, o que foi uma pena, pois se trata de uma história com muito potencial.

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Resenha: A Escolha, Kiera Cass

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O volume final da trilogia A Seleção, escrita por Kiera Cass, tem seu início marcado por inúmeras tramas em aberto, e principalmente, pela difícil “reconstrução” do relacionamento de America e Maxon. O príncipe não consegue voltar a confiar na protagonista (chegando a destrata-la em alguns momentos), que se torna cada vez mais desesperada para reconquistá-lo.

A trama que envolve a Guerra entre rebeldes e realeza ganha maior destaque, com o nascimento de uma aliança entre Maxon e os Rebeldes do Norte, contra os violentos Rebeldes do Sul. Algumas informações ficam mais claras para o leitor, como o fato de os rebeldes possuírem um informante dentro do castelo. Mais confiante, America atuará diretamente neste cenário, promovendo encontros e utilizando-se de seus contatos para ajudar a causa.

A perseguição do Rei com America intensifica-se, já que no final do volume anterior o mesmo deixa claro que fará o que for possível para dificultar a estadia da jovem na competição, impedindo-a de ser a escolhida. A menina será testada inúmeras vezes, e das formas mais severas possíveis.

Diferente dos outros dois volumes, este livro tem um ritmo bastante desequilibrado, que acaba sendo desagradável. Alguns acontecimentos “chave” da história são narrados com extrema rapidez, tornando-se confusos; já outros capítulos são dedicados inteiramente às exaustivas divagações de America.

Outro ponto que o livro ensaia um desenvolvimento, mas não se aprofunda, é a relação da protagonista com a Rainha. Os diálogos entre as duas personagens precisava de mais conteúdo, mostrando melhor a personalidade da Rainha, o que não acontece.

Aliás, o último volume da série, como já foi dito, começa com inúmeras tramas interessantes a serem desenvolvidas, e termina lotado de pontas soltas e passagens sem sentido no contexto geral da história. Caso a leitura da série seja feita em sequência, não fica muito difícil reconhecer os “buracos” no enredo. Vários são os momentos em que o leitor percebe a superficialidade com a qual alguns acontecimentos são tratados, e fica uma sensação de que havia mais a ser contado.

Os desfechos dos personagens são fracos; em determinado ponto parece que a escritora mata alguns personagens e/ou une outros pelo simples fato de não saber o que fazer com eles. Mesmo entre os protagonistas, o “vai-e-vem” emocional fica cansativo, e o “gran finale” prometido ao longo de toda a saga, pobre. Ficaram faltando passagens, diálogos, conflitos que não aconteceram – o que explica a existência dos livros spin-offs. Claramente havia a necessidade de explicar melhor algumas tramas e relações.

Concluindo, de toda a trilogia, infelizmente o último volume é de longe o mais fraco e decepcionante. Começou com altas expectativas, com material para um desfecho épico, que não acontece. A leitura é válida como um todo, a história é instigante, os personagens interessantes e o enredo empolga, mas em A Escolha a escritora infelizmente não consegue manter a mesma qualidade dos livros anteriores.

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Nota da Leitora Dinâmica: É frustrante quando o leitor apega-se a uma história, e ganha um desfecho como o último volume da trilogia A Seleção. Ficou uma sensação de que a escritora terminou a história porque precisava fazê-lo, sem pensar muito no contexto geral, deixando o texto ora entediante, ora confuso, devido à quantidade de eventos simultâneos. Esperava muito de alguns personagens e principalmente de algumas relações a serem exploradas, como por exemplo, um vínculo “mãe e filha” entre America e a Rainha, algo ensaiado várias vezes e que não é aprofundado. O livro promete, mas não cumpre – o que é uma pena.

 

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Resenha: Nada, Janne Teller

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Agoniante, perturbador e …maravilhoso. Nada, escrito pela dinamarquesa Janne Teller levanta uma série de questionamentos pessoais, sociais e expõe a essência do ser humano em sua pior forma. É um daqueles casos em que a sinopse não faz jus à história do livro que descreve – o que acredito ser proposital.

Aparentemente “leve”, o romance – que se passa em uma cidade do interior da Dinamarca – inicia-se com um acontecimento peculiar no primeiro dia de aula da classe do sétimo ano. Um aluno chamado Pierre Anthon, sai de sala alegando que “nada importa logo não vale a pena fazer nada”; diante desta afirmação, passa a habitar a árvore em frente sua casa, questionando e provocando seus colegas quando os mesmos passam por ali.

A atitude de Pierre Anthon desperta uma série de dúvidas nos demais alunos, levando-os a questionar o real significado de tudo. Uma espécie de incômodo toma conta de toda a classe, e a solução encontrada por eles para resolver o “problema” é tirar Pierre Anthon de sua árvore. Para isso, eles decidem atirar pedras no colega, utilizando-se de violência para fazê-lo sair do local. Neste momento da história, a escritora expõe a maneira que o “diferente” é capaz de incomodar um grupo, que mesmo sendo de alunos de 13/14 anos, sente a necessidade de extingui-lo para retomar a sua ordem.

Com o fracasso da tentativa de “jogar pedras” e a permanência de Pierre Anthon na árvore, as crianças decidem seguir outro caminho: provar que os questionamentos expostos pelo colega estão errados.  A nova estratégia deles consiste em montar uma pilha com itens que contenham significado, algo que não possa ser contestado por Pierre Anthon, e convença o mesmo de que ele está enganado. Existe a necessidade de tornar o “significado” algo palpável, tanto para o colega questionador, quanto para os próprios alunos que desejam provar que ele está errado.

À medida que a pilha de significados começa a se formar, ceder os objetos passa a ser cada vez mais doloroso para os alunos. Movida por este sentimento, Agnes (narradora da história, canal por onde o leitor conhece a percepção das crianças diante dos acontecimentos), decide “vingar-se” de outra aluna, solicitando seu animal de estimação para a pilha. Este é o ponto inicial em que o limite do aceitável (ou até mesmo do ético) é ultrapassado entre os envolvidos, que ficam ludibriados com o ser-vivo e a representação da vida na pilha, e o significado que isto acrescentou a ela.

A partir deste momento os “significados” solicitados são cada vez mais pesarosos e cruéis, já que os solicitantes passam a agir influenciados pela raiva do que abriram mão. A noção de certo e errado é completamente perdida por eles, que “justificam” seus erros como pertinentes à construção da pilha – algo muito próximo de “os fins justificam os meios”. E é aí que a história torna-se assustadora.

Se antes o livro parecia um romance infanto-juvenil bem elaborado, protagonizado por crianças, agora passa a ser um enredo de horror. Com passagens revoltantes envolvendo um estupro “consentido” pela vítima e pelas demais meninas da classe, o assassinato de um animal inocente, amputações e a banalização de objetos religiosos, o leitor por diversas vezes duvida que esteja lendo um romance protagonizado por crianças – tamanha a crueldade de seus atos.

A elaboração da pilha causa danos em todos, e traz à tona o pior de cada um. Quando sua existência vem a conhecimento da comunidade, as opiniões a respeito do que a mesma representa são as mais contraditórias: uns amam, outros condenam. Porém, a pessoa chave que deu início ao processo, Pierre Anthon, não se comove com o feito e mantém suas verdades imutáveis. Não satisfeito, questiona os colegas novamente, sobre sua postura o perante o sucesso que a obra os trouxe, deixando a maioria novamente em dúvida sobre a existência de um “significado”.

Em um final terrível, provável, e mesmo assim inesperado, o leitor acompanha a crise de consciência que se inicia entre as crianças; mesmo reconhecendo os terríveis atos que cometeram, não são capazes de assumir a culpa pelos mesmos, direcionando-a ao questionamento levantado por Pierre Anthon e a ele próprio.

Concluindo, Nada expõe o lado mais animalesco e cruel do ser humano, algo intrínseco na essência de cada um, já que a maioria das ações cometidas pelos personagens partiu de cada um, não foi “ensinada” por ninguém. Na última fala de sua narradora, o livro entrega sua conclusão de uma forma muito sutil: não são objetos que possuem significado e sim o que eles representam e/ou os atos que rememoram. Compreende-se que o “significado” tão buscado ao longo da história, é na verdade a representatividade de tudo: de atos, sentimentos e escolhas – positivas ou não.

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Nota da LD: Eu diria que é uma heresia sem fim categorizar Nada como leitura Young Adult; este livro é capaz chocar o mais experiente dos leitores. Passei dias pensando em como redigir esta resenha, e cheguei à conclusão que nada que eu escrevesse seria completo, e estaria à altura da infinidade de temas e questões abordadas por Janne Teller. Este é o tipo de livro que deve ser discutido à exaustão, destrinchado e questionado – e mais importante ainda: lido. Particularmente, histórias envolvendo crianças e crueldades me chocam (por exemplo, de A menina que não sabia ler), mas neste caso a história conseguiu conter tudo que há de pior e mais revoltante no ser humano, na minha humilde opinião. Somos capazes de acompanhar atos movidos por inveja, cobiça, vingança, luxúria, abuso de poder, preconceito, avareza – todos cometidos por crianças de 13/14 anos! Para mim foi uma leitura excelente (a qualidade da escrita e a inteligência da escritora são inegáveis), porém chocante, o que torna compreensível a polêmica em torno da obra, chegando a ser proibida. Recomendo sim o livro, mas com todas as advertências possíveis para quem se aventurar, pois é um romance de “dar nó” na cabeça de muita gente – e uma vez lido, impossível de esquecer.

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Resenha: Férias, Marian Keyes

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“Ninguém pode nos fazer sentir coisa alguma… Nossos sentimentos são responsabilidade nossa.”

Férias, de autoria da escritora irlandesa Marian Keyes, pode até ter seus momentos “tragicômicos”, mas em nenhum momento se aproxima do título que carrega. Trata-se de um livro denso, difícil, e que aborda um dos maiores males da nossa sociedade: vícios.

A história começa quando Rachel, a irmã do meio da família Walsh (já conhecida no livro Melancia), sofre uma overdose de remédios e drogas em Nova York, onde mora com a melhor amiga Bridget. Diante da exposição da gravidade de seu vício, Rachel é obrigada pela sua família a retornar à Irlanda para tratar-se no centro de reabilitação chamado Claustro.

Apesar das evidências da gravidade do mal que sofreu, Rachel recusa-se a reconhecer que tem um problema e insiste que tudo não passou de um terrível engano. Para ela, seu uso constante de drogas de diferentes tipos não passa de algo recreativo, por mais que suas relações interpessoais e profissionais demonstrem exatamente o contrário; algo que inclusive prejudica e finda seu relacionamento com o namorado, Luke.

Mantendo-se em um estado de constante negação, Rachel não cria objeções à sua internação no Claustro, pois acredita estar indo para um spa cheio de celebridades e luxos. Mesmo já dentro do estabelecimento, projeta a fantasia onde encontrará pessoas famosas em outro setor diferente do seu, que acredita estar passando por obras devido às simplórias condições.

Como não se considera uma dependente química, Rachel sente-se superior aos outros internos, que possuem os mais diversos vícios (álcool, jogos, comida). Porém, aos poucos, a personagem vai se afeiçoando às pessoas e criando uma espécie de vínculo com elas – mesmo que ainda não reconheça sua condição de toxicômana.

Em uma estratégia inteligentíssima da escritora, acompanhamos em paralelo com sua estadia no Claustro, flashbacks do passado de Rachel. Neles, conhecemos sua personalidade (e extrema falta de autoestima), seus relacionamentos amorosos (incluindo Luke), a complexa amizade com Bridget e o agravamento de seus vícios – e suas respectivas consequências.

Durante as sessões de terapia em grupo no Claustro, Rachel passa a reconhecer a raiz das suas inseguranças agravadas por questões familiares, e a forma como usava drogas para não lidar com elas. A aceitação de sua condição de dependente química, e o reconhecimento de seu comportamento negativo, ocorre somente quando é duramente confrontada por Luke e Bridget. E é a partir deste momento que a personagem realmente dedica-se ao seu processo de reabilitação, amadurecendo e ganhando novas perspectivas e valores.

Mesmo disposta e focada em mudar, ao sair do Claustro, uma sequência de acontecimentos levam Rachel a ter uma recaída. Este episódio será essencial para que a personagem conclua alguns assuntos em aberto, e sinta repulsa por sua antiga rotina e seu vício, ganhando “novo fôlego” para permanecer sóbria.

Parte do processo de “cura” da personagem consiste em perdoar, se perdoar e pedir perdão para as pessoas que magoou. Nesta busca, Rachel retorna a Nova York em busca do perdão do Luke.  O final, de certa forma piegas, oferece conforto diante de toda a dura realidade exposta no livro; e também dá “ares de esperança” para a protagonista e os leitores que, por algum motivo, identificam-se com ela.

Concluindo, Marian Keyes trata a questão das drogas de forma honesta, sem floreios, abordando a fundo causas e consequências do problema. É importante ressaltar a constante preocupação da autora em “quebrar” estereótipos, mostrando que o vício é uma doença que pode afetar todo o tipo de pessoa, independente de idade, gênero, raça ou condição social. Férias é aquele livro que simultaneamente entretém, informa e faz pensar.

 

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Resenha: Uma curva no tempo, Dani Atkins

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Narrado pela protagonista chamada Rachel, o livro escrito por Dani Atkins começa com uma pequena introdução a respeito de suas “duas vidas” que, para o leitor, inicialmente não faz muito sentido. Porém é nesta mesma página que o tempo “presente” da história retorna cinco anos antes, para o acontecimento chave da história: o acidente no jantar de despedida.

Na primeira versão do trágico acidente, Rachel e seus amigos recém-formados no ensino médio, encontravam-se pela última vez antes que todos deixassem a cidade de Great Bishopford. O grupo era formado por sete pessoas, dentre elas Rachel, seu namorado Matt, Jimmy (seu amigo de infância), Sarah (melhor amiga da protagonista) e a exuberante e nada confiável Cathy.

Os fatos narrados nos momentos que antecedem o acidente serão de grande importância para o entendimento da história. Durante o jantar, podemos perceber a amizade entre Rachel e Sarah (e as dúvidas delas com relação ao caráter de Cathy), os sentimentos de Jimmy por Rachel e a consequente animosidade entre ele e Matt; a insegurança de Rachel em seu relacionamento também fica evidente.

E no desenrolar do evento, um carro desgovernado invade o restaurante, no exato local onde o grupo de amigos estava sentado. Todos conseguem sair a tempo, com exceção de Rachel que fica presa durante a confusão. Matt faz menção de ajuda-la, mas é contido por Cathy, enquanto Jimmy retorna salvando a vida da amiga, entretanto ele não consegue escapar, e acaba morrendo ao fazê-lo.

A história avança cinco anos para o seu presente; nele Rachel encontra-se completamente atingida física e psicologicamente pelo acidente que matou Jimmy. Culpando-se pela morte do amigo, abandonou seus objetivos, afastou-se de Matt e dos amigos e nunca mais retornou à sua cidade natal. Tornou-se uma pessoa isolada, convivendo pouco até mesmo com seu pai, que está com câncer. No que diz respeito à sua própria saúde, a personagem sente fortes dores de cabeça e lida de forma negligente com o fato, apesar da insistência do médico que a acompanha desde o acidente.

Mesmo relutante, Rachel decide ir até Great Bishopford para o casamento de Sarah, após muita insistência da amiga. Chegando à cidade, decide enfrentar as memórias que tanto luta para esquecer, e faz um tour pela cidade antes de comparecer ao jantar de despedida de solteira da amiga. Nele, passa por sua antiga casa e pela de Jimmy – algo catártico e bastante doloroso, que acaba agravando suas já fortes dores de cabeça.

E é na despedida de Sarah que os amigos se reúnem pela primeira vez após o trágico acidente. Todos agem de forma superficial e evitam falar sobre Jimmy, de forma que o jantar corre bem, até Rachel sentir outra forte enxaqueca e precisar ir embora. Matt lhe oferece uma carona, desagradando uma ciumenta Cathy – sua atual namorada.

Após uma difícil conversa com Matt, Rachel fica perturbada e decide visitar o túmulo de Jimmy. Lá, completamente abalada, suas dores se agravam ainda mais e ela desmaia.

Ao acordar no hospital, Rachel encontra uma nova realidade; ela está no hospital porque foi agredida durante um assalto, tornou-se uma profissional de sucesso, está noiva de Matt, seu pai não está doente, e o mais impressionante: Jimmy está vivo. O acidente, antes fatal, agora era sinônimo de sorte, pois todos conseguiram se salvar. Conseguindo lembrar-se somente dos cinco anos seguintes à morte de Jimmy e sem saber nada desta “nova vida”, Rachel inicia uma busca para provar a veracidade de suas lembranças e também familiarizar-se com o que desconhece.

Neste processo, Rachel reaproxima-se de Jimmy, o único além de seu pai que não duvida de sua sanidade. Esta reaproximação fortalece a amizade de que a personagem tanto sentia falta, e permite que antigos sentimentos e desejos venham à tona. Após algumas descobertas, os dois assumem o que sentem de fato e passam a viver uma história de amor, e Rachel finalmente volta a sentir-se feliz e satisfeita com sua vida.

E como todo bom romance, o livro parece estar se encaminhando para o “felizes para sempre” mais provável de todos, até que uma revelação deixa o leitor completamente desconcertado e muda o caráter e o sentido de tudo que acabou de ser lido.

Uma curva no tempo é daqueles livros que provocam amor e ódio nos leitores nas últimas cinco páginas. É possível encontrar opiniões extremamente positivas e emocionadas sobre o livro e ao mesmo tempo em que outras julgam ser o pior livro já escrito. Mas sempre há um ponto em comum: o final é sem dúvida impressionante.

Pessoalmente, ainda estou refletindo sobre o desfecho e não consegui definir uma posição; há momentos em que acho que a história fala sobre amor, esperança e segundas chances, de uma forma poética até. Enquanto em outras horas, só consigo pensar que é tudo uma terrível brincadeira de mau-gosto, bem piegas, de deixar qualquer um desiludido com a vida. Sinceramente, não tenho opinião formada.

Porém, é inegável a qualidade da escrita de Dani Atkins e a forma inteligente como ela conduziu a história, relacionando pequenos fatos a grandes acontecimentos. O enredo é muito bem construído e amarrado, sem pontas soltas, e nenhuma informação é irrelevante. Confesso que o desfecho, para os mais atentos, fica nítido em algum momento da história – mas não perde seu efeito surpresa ou deixa de provocar reflexão no leitor. Concluindo, independente das impressões finais, o livro merece ser lido.

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Resenha: A Elite, Kiera Cass

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O segundo volume da trilogia A Seleção, inicia-se com a protagonista da história, America, ainda dividida entre seu amor de infância por Aspen e os sentimentos que surgem pelo príncipe Maxon durante a seleção. Agora restam somente seis meninas na competição, o que a torna mais acirrada e traz à tona a essência dos envolvidos – até mesmo do príncipe.

Com uma dinâmica mais acelerada, A Elite aborda de maneira mais intensa as relações de confiabilidade entre os personagens. No caso de America, isso é algo que vai desde a relação com Maxon, à sua amizade com Marlee e a confiança cega que possui em seu pai. Mas, principalmente, trata da segurança que a protagonista precisa ter em si própria.

A relação amorosa de America e Maxon chegará ao ápice com a menina finalmente assumindo o que sente, e se desconstruirá ao longo do livro. Após um acontecimento trágico e cheio de mal-entendidos envolvendo Marlee, o vínculo de confiança existente entre o casal sofre um forte baque, o que abre espaço para que America reaproxime-se de Aspen (agora guarda do Palácio), e para que Maxon se envolva de fato com as outras participantes, principalmente Kriss.

Aliás, a trajetória de Maxon ao longo desde volume é um tanto quanto decepcionante. Se no primeiro livro, somos apresentados a um jovem solitário, bem-intencionado, romântico e apaixonado, neste conhecemos sua insegurança, seu medo da solidão, sua ânsia em agradar o Rei, e até mesmo seu machismo – a passagem em que ele justifica para America seu envolvimento com Celeste é digna de “revirar o estômago”. Durante o decorrer do enredo, o príncipe tem algumas atitudes positivas, mas que ficam pequenas perto da forma como passa a se portar. Somente nos momentos finais do livro é que é possível reconhecer em Maxon a personalidade cativante que é demonstrada em A Seleção.

As invasões rebeldes cada vez mais recorrentes e violentas ao Castelo, e os acontecimentos que levaram à fundação de Iléa ganham mais espaço no enredo. Se no primeiro volume, America questiona brevemente os fatos que levaram a consolidação do sistema político de seu país, neste vemos a personagem buscar de forma cada vez mais analítica sua origem, questionando também a justiça de sua configuração sócio econômica.

Após tomar conhecimento da verdade sobre a história de Gregory Iléa (fundador de Iléa), America vê sua relação com Maxon abalar-se ainda mais, e outro de seus questionamentos é acentuado: ela realmente conseguiria ser princesa de Iléa, sabendo o que sabe agora? Diante deste conflito pessoal, a protagonista não consegue dividir suas aflições com ninguém, já que sua relação com Maxon está cada vez mais fria e Aspen não a entende. Movida por sentimentos contraditórios, America então age de forma impulsiva, expondo não somente a si mesma, mas também o príncipe, traindo sua confiança.

Porém, um acontecimento inesperado ocorre, deixando America e Maxon sozinhos e trancados. Desta forma, o casal é obrigado a conversar e esclarecer todos os seus desapontamentos e desconfianças mútuas (algo que não conseguem fazer claramente em boa parte do livro), levando-os a assumir seus sentimentos.  Maxon confessa estar ferido e que sua confiança foi abalada, mas que ainda tem interesse por America. O príncipe deixa claro que a garota precisará lutar pelo seu amor e confiança, e também acreditar nele antes de tirar conclusões precipitadas.

As consequências da atitude impulsiva de America ganham proporções acima das que ela esperava, despertando a ira do Rei. Em um diálogo ofensivo, o mesmo deixa claro seu descontentamento com a permanência da garota no Castelo, e que fará o possível para dificultar não apenas a sua estadia ali, mas também que ela seja a escolhida pelo príncipe.

A história se encerra com America assumindo seus sentimentos e deixando o caminho de Aspen livre, ao pedir que ele se afaste. Pela primeira vez, a jovem está de fato comprometida com A Seleção e seu desejo de vitória não tem como objetivo a coroa, mas sim o amor de Maxon.

Concluindo, A Elite mantém a narrativa instigante e leve do primeiro livro da trilogia. Aborda temas que estavam em aberto, dando desfechos a eles, e traz à tona novas tramas. O livro funciona bem como elemento de transição entre início e fim da saga, cumprindo seu papel de manter o interesse do leitor com êxito.

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Opinião da Leitora Dinâmica: Se no primeiro volume Maxon me cativou completamente, em A Elite perdi a conta do número de vezes que sua infantilidade e insegurança me decepcionaram. Em nenhum momento desde que iniciei a leitura, tive alguma simpatia por Aspen, e isto se manteve até o fim. Algumas passagens do livro em que o machismo de alguns personagens fica explícito também me desagradaram, mas acredito ter sido esta a intenção da escritora. Minha ansiedade para ler a conclusão da trilogia está alta, mas confesso certo temor diante da quantidade de “pontas soltas” que precisam de desfecho e também da rapidez com que a personalidade dos personagens se modifica – confesso que isto foi algo que não me agradou muito e interferiu na empatia que sentia por alguns, algo que no volume final de uma série, pode ser bem negativo.

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Resenha: A Seleção, Kiera Cass

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A distopia escrita por Kiera Cass é narrada pela personagem principal: America. A menina de 16 anos é filha do meio de uma família de cinco filhos, onde todos são artistas. Eles vivem em Illéa, uma nova região que se formou após diversas guerras no território da América do Norte. Sua sociedade é divida em oito castas, que vão dos nobres aos mais miseráveis.

Illéa é um estado monárquico, e possui como tradição um processo de seleção para a escolha da futura rainha. Participam 35 cidadãs de diversas províncias e castas, e dentre elas o príncipe deverá escolher sua futura esposa. Apesar de já ter idade suficiente para participar, e diferente de todas as outras moças, este nunca foi o desejo de America. A menina é apaixonada por Aspen, um jovem batalhador pertencente à casta Seis (os serviçais), que é inferior à Cinco (os artistas), à qual sua família pertence. Por este motivo o namoro entre os dois sempre foi escondido, pois é algo considerado malvisto, já que ao casar-se com um homem de casta inferior, a mulher automaticamente passa a ser da casta dele.

Por insistência de Aspen que teme não conseguir dar à America o conforto que gostaria devido às limitações de sua casta, e subornada por sua própria e ambiciosa mãe, America acaba se candidatando para participar da Seleção, com a certeza de que não seria escolhida.

Pouco antes da divulgação do resultado, Aspen termina seu relacionamento com America. O jovem, por orgulho, não aceita que sua namorada o ajude financeiramente, mesmo que seja com o objetivo de casar-se com ele. De forma grosseira, ele rompe com a protagonista, deixando-a de coração partido.

Mesmo triste e para sua surpresa, America é uma das trinta e cinco moças escolhidas para A Seleção. Ao ser selecionada, a jovem passa a morar no Palácio ao lado da família real, a fim de aproximar-se do príncipe. Sua casta é modificada (America deixa de ser uma Cinco e se torna uma Três), e ajudas de custo mensais passam a ser enviadas para a sua família até que a mesma retorne para seu lar – caso seja dispensada pelo príncipe ou eliminada por outro motivo.

Motivada pela ajuda financeira que sua família receberá, pela ambição da mãe e pela tristeza que sente após o rompimento com Aspen, America decide embarcar com as outras selecionadas para o Castelo.

America entre na disputa sem o desejo de sair vitoriosa, apenas quer permanecer ali o maior tempo possível, de forma a garantir a ajuda financeira de sua família. Por acidente, acaba conhecendo o Príncipe Maxon antes das apresentações oficiais, age de forma extremamente incorreta com ele, porém honesta. E assim uma sincera amizade se inicia entre eles.

Inicialmente, America deixa claro para Maxon que ama outra pessoa, e que não tem intenções de se casar com ele, oferecendo-se inclusive para ajuda-lo a escolher sua futura esposa. Mas aos poucos, a relação entre os dois evolui, de forme que a personagem começa a ter sentimentos pelo príncipe. Maxon por sua vez, deixa claro desde o início o interesse que sente por ela. Porém, segue em frente com o processo de Seleção.

A relação de America com as outras selecionadas é cuidadosa, mas ela consegue fazer algumas amizades. Ela também fica muito apegada às suas damas de companhia, pois são pessoas que a lembram de suas origens e em quem ela realmente pode confiar, preferindo muitas vezes ficar em seus aposentos a interagir com as outras participantes.

America e Maxon desenvolvem uma enorme cumplicidade, encontrando-se várias vezes fora dos eventos oficiais, trocando muitas confidências e experiências. Ela conta ao príncipe as dificuldades enfrentadas pelas castas mais baixas, desconhecidas por ele, enquanto ele lhe mostra que a vida no Castelo não é tão simples quanto parece. E é durante um destes passeios que a garota descobre que Aspen, seu ex-namorado, tornou-se Guarda Real do Palácio.

Sem encontrar coragem para contar ao príncipe que, na verdade, aquele Guarda é seu ex-namorado, America observa em estado de choque quando Maxon ordena que Aspen seja seu guarda pessoal. Com a proximidade de Aspen e o esclarecimento de alguns conflitos entre eles, America fica completamente dividida pelo amor que sentia pelo rapaz e o novo sentimento que começa a surgir por Maxon. Tal dúvida faz muito mal à garota, que ao final do primeiro volume da série, toma uma decisão: quer distância de Aspen para que possa finalmente dedicar-se a competição e entender, de fato, o que sente por Maxon. Porém, Aspen deixa claro que não desistirá assim tão fácil de sua amada.

As semelhanças com a trilogia Jogos Vorazes, da autora Suzanne Collins, são muitas: desde a segregação da sociedade através do sistema de castas (em JV temos os distritos) até o amor da protagonista pela irmã, a idealização de seu pai e sua determinação em fazer o melhor pelas pessoas que ama. Sem citar o conflito do primeiro amor, que remete às origens X o sentimento construído por uma segunda pessoa que pertence a uma nova realidade.

Já com relação ao livro A Rainha Vermelha, apesar das semelhanças, temos uma diferença crucial: enquanto A Seleção tem em seu plano principal a história de amor entre os personagens principais, o outro livro tem a guerra e os ideais dos personagens em foco. Ambos os livros abordam temas parecidos, mas de forma e intensidade bastante diversas.

Concluindo, A Seleção é uma leitura que prende do início ao fim, apesar do final ser um pouco solto, ficando claro que há uma continuação. Os personagens são carismáticos e não se mostram “de cara” o que instiga a curiosidade. Sem dúvidas, a leitura faz jus ao seu sucesso.

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Resenha: Melancia, Marian Keyes

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Melancia, primeiro best-seller da escritora Marian Keyes, conta a história de Claire Walsh, uma irlandesa que é abandonada pelo marido, James, no exato momento em que acaba de dar à luz a primeira filha do casal. Como a personagem é a narradora da história, o leitor fica a par de todos os sentimentos e conflitos que a mesma precisa enfrentar.

Aos 29 anos, sozinha e com uma filha recém-nascida, Claire decide sair de Londres onde morava por um período, e viajar para a casa dos pais em Dublin. Completamente abalada, pois seu marido a abandona para viver com outra mulher (a vizinha deles), Claire passa por todos os estágios de rejeição e humilhação pertinentes à traição que sofre. O fato de ter acabado de dar à luz acentua ainda mais seu sofrimento, pois se sente na obrigação de pensar por ela e pela filha, mas diante de sua depressão, não consegue fazê-lo. Filha mais velha de uma família com cinco filhas, ela conta com a ajuda de seus familiares que ainda moram em Dublin: seus pais e suas duas irmãs mais novas, Anna e Helen para cuidar da filha e se reequilibrar.

Diante da traição do marido e fim casamento que considerava perfeitos, Claire passa a se questionar sobre o que pode ter acontecido de errado, sem conseguir enxergar motivos para a atitude de James. A tristeza, somada com a sua falta de autoestima (ela está bem acima do seu peso devido à gravidez, comparando-se a uma Melancia – e daí vem o nome do livro), a colocam num espiral de depressão e auto depreciação. Ela passa a viver os seus dias cuidando o máximo que consegue da filha, e esperando o retorno do marido, desejando sua “antiga vida” de volta. Posterga inclusive, a resolução de questões financeiras básicas, pois para ela, tomar estas decisões significa assumir que seu casamento acabou.

Com o passar das semanas, Claire começa a aceitar o fato de que seu marido não irá voltar e dá início a um processo de reação. Percebe que perdeu peso, volta a se vestir de forma decente, cozinhar e dar mais atenção à filha. É neste momento que ela conhece o atraente e gentil amigo da irmã, Adam. Logo no primeiro momento Claire interessa-se por ele (mesmo negando isto inicialmente), e a atração é mútua. Os dois então dão início a um complicado relacionamento, regado a momentos de crise, pois Claire ainda está insegura para envolver-se novamente. Adam trata Claire muito bem, o que a faz sentir-se bem em sua presença. Ele sempre a lembra o quanto ela é interessante e especial, e assim a personagem começa e retomar o seu já esquecido amor-próprio.

E quando finalmente a personagem parece estar entrando em sintonia com Adam, seu marido reaparece. Mas ao contrário do que Claire fantasiou ao longo de meses, James não retorna pedindo seu perdão e implorando que ela retorne para casa. Ao contrário, ele coloca Claire na posição de culpada, alegando que seu temperamento imaturo e egoísta foi um catalizador para a traição que cometeu, e exige mudanças drásticas por parte dela para que eles possam reatar.

Desnorteada, e pensando no ambiente familiar que gostaria de dar à filha, Claire acaba assumindo a culpa que lhe é imposta, e aceita voltar para Londres e para James – mesmo não estando feliz com essa decisão e magoando Adam. Porém, ao entrar sem querer em contato com antigos amigos, surpreendentemente Claire descobre o quão desesperado James estava para tê-la de volta. A personagem conclui então que todo o discurso de seu marido foi uma forma de manipulá-la, pois o isentava do grave erro que cometeu, e ainda era uma maneira de “domesticar” sua personalidade que o deixava tão inseguro.

Neste momento do enredo, Claire deixa de ter uma visão romântica de James, e passa a enxergar seus graves defeitos, inclusive seu pouco interesse pela filha, e vai deixando gradualmente de amá-lo. Tomada pela ira, ela vai até Londres e finalmente termina seu casamento de uma vez por todas. É importante ressaltar que mesmo quando percebe que está prestes a perder a esposa para sempre, James não admite seus erros e continua insistindo que a culpa do término do casamento não é sua, e que Claire não está com “a cabeça no lugar”.

Perante este novo quadro de sua vida, e após algum tempo para “digerir” tudo o que aconteceu, Claire finalmente amadurece e toma as atitudes que tanto postergou; consegue um novo lugar para morar, define a ajuda financeira que James dará a filha e decide retornar para Londres e para seu antigo emprego. E é neste meio tempo que ela se reencontra com Adam, e descobre mais sobre sua história, inclusive o fato de que ele também está de mudança para Londres. Os dois então assumem seus desejos e livro termina com o caminho aberto para o início de uma bela e saudável relação.

Concluindo, Melancia é um livro que trata de assuntos muito pesados como depressão, abandono e traição, dentre outros, mas sempre com muito bom humor. A escrita rápida, irônica e às vezes até mesmo confusa de Marian Keyes é pertinente à história, pois a mesma é contada pela perspectiva da protagonista que de fato, está confusa. Durante todo o livro a sensação é que estamos ouvindo o relato de uma amiga, e acredito que este tenha sido o desejo da escritora. Com personagens carismáticos e uma história crível e cotidiana, Melancia é uma leitura que merece ser feita (e refeita!) e faz jus ao seu número de vendas.

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Opinião da Leitora Dinâmica: Havia lido o livro há mais de cinco anos atrás e lembro que na época o achei muito divertido e que a escrita da autora me agradou muito, o que me levou a ler seus outros títulos (alguns até melhores que Melancia). Ao reler a história agora, percebi de uma forma diferente as nuances dramáticas do enredo, e a forma divertida, porém direta que a autora trata questões muito graves como drogas e depressão. Foi uma leitura muito produtiva, e que reafirmou Marian Keyes como uma das minhas autoras favoritas.

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Resenha: Pax, de Sara Pennypacker

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Contada com a estrutura de uma fábula infantil pela autora Sarah Pennypacker, a história de Pax inicialmente pode parecer inocente, e até mesmo boba. Porém, à medida que o leitor aprofunda-se no universo do livro, e conhece a trama de relações e traumas que compõem cada um dos personagens, o enredo torna-se algo muito mais complexo do que “a jornada de um menino em busca de sua raposa abandonada”.

A história começa no exato momento em que Peter, obedecendo às ordens do pai, abandona sua raposa de estimação, Pax, na floresta. Com capítulos alternados entre as trajetórias do menino e do animal, é possível compreender o relacionamento entre ambos e como a separação os afeta. A dor sentida pela criança ao deixar o animal e a desorientação do mesmo diante da nova situação imposta, são extremamente comoventes. E tem aí o ponto de partida da enorme antipatia que o leitor sentirá ao longo do livro pelo pai de Peter.

Com o alistamento de seu pai à guerra e, sendo sua mãe já falecida, não sobra outra opção a Peter que não seja morar em outra cidade com seu avô. A mudança é o principal motivo dado pelo pai para que a raposa seja abandonada, algo que por medo, o menino relutantemente acaba aceitando. Porém, ao chegar ao seu novo lar e descobrir alguns fatos interessantes sobre a vida de seu pai, Peter conclui que está no lugar errado.

Motivado pela culpa do abandono e pelo amor que sente por Pax, o menino então decide sair numa jornada até o local onde abandonaram o animal, com o objetivo de reencontra-lo. Ao mesmo tempo, Pax decide retornar para a casa na esperança de que “seu menino” esteja lá. Ambos sentiam-se responsáveis pela segurança um do outro.

Durante suas jornadas, tanto o menino quanto a raposa, encontram e fazem amizades com personagens que lhe transmitem experiência, ajudam, desafiam e acolhem. E assim como Pax e Peter, todos tiveram suas vidas afetadas de forma negativa pela guerra.

Ao longo do enredo, os traumas do garoto vão sendo apresentados de forma sutil, na sua narrativa, e também na de Pax. Peter vive em uma constante luta interna para não se tornar igual ao seu pai: um homem violento e marcado pela guerra, sendo consequentemente a figura que ele mais temia. Submisso, por diversas vezes o menino foi protegido por seu animal de estimação.

Percorrendo caminhos diferentes, porém com um objetivo comum, ambos os personagens amadurecem e mudam sua personalidade ao longo das trajetórias. Enquanto Peter aprende a aceitar seus sentimentos e lidar com eles, adquirindo autoconfiança, Pax descobre todo um mundo a ser explorado, e ao lado de seus semelhantes, reconhece e faz uso de seus instintos – algo que antes não se fazia muito necessário. Menino e animal reencontram-se com sua essência.

Em um primeiro momento, não é possível afirmar que o final agrada. Porém, ao analisar melhor, compreendemos que o foco da autora não era no destino dos personagens e sim, no amadurecimento de cada um ao longo do caminho trilhado. Concluindo, esta citação da escritora Kamila Behling encaixa-se perfeitamente na história e em sua mensagem:

Mais importante do que a chegada é a caminhada, e não há caminho sem metamorfose: ela é a ponte que torna possível a nossa travessia até os novos continentes a serem descobertos dentro de nós.

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