Resenha: A Carne dos Anjos, Siobhan Dowd – Ed. Agir

carneanjos

O primeiro contato que tive com a escritora Siobhan Dowd, sem saber, foi ao ler “Sete minutos depois da meia noite”, do autor Patrick Ness. Fiquei tão comovida com um livro aparentemente tão pequeno – mas tão bem escrito – que procurei todas as suas informações possíveis. Descobri então que a premissa partiu originalmente de Siobhan Dowd; como a escritora encontrava-se em um estágio avançado de câncer, temeu não conseguir finalizar a história a tempo e pediu ao seu amigo, Patrick, que o fizesse.

Diante dessa “revelação” fiquei apaixonada pela escritora (como podemos mensurar a generosidade de um escritor para com seus leitores ao entregar uma história para que um colega a finalize?!), algo que cresceu exponencialmente ao ler sua biografia: filha de irlandeses e criada na Inglaterra, Dowd se envolveu em inúmeros movimentos à favor dos direitos humanos e da liberdade de expressão, criando  iniciativas de apoio à infância e adolescência em áreas humildes de diversas cidades. Infelizmente, os temores de Dowd com relação à sua doença se concretizaram, e ela veio à falecer em 2007, com apenas 47 anos de idade.

Procurei todas as publicações possíveis da escritora; e fico muito triste em dizer que a única traduzida para o português é “A Carne dos Anjos”,   obra que lhe rendeu premiações, excelentes críticas e uma indicação para o  Guardian Children’s Fiction Prize.

Comprei o livro e ele ficou um bom tempo parado na minha estante até que eu criasse coragem para lê-lo.  O enredo é baseado em uma história real, e conta a história de Shell, uma adolescente de apenas 15 anos mas que já passou pelas mais tristes e adversas situações em sua vida: a morte da mãe, o alcoolismo do pai, a responsabilidade pelos irmãos mais novos, o abuso de amigos e ainda irá se ver no meio de um escândalo envolvendo a Igreja em uma pequena cidade católica Irlandesa.

A história é muito, muito pesada, daquela de arrancar lágrimas e revolta a cada capítulo mas, Dowd a contou de forma tão honesta e até mesmo pura, que apesar de toda a tristeza presente naquelas páginas, conseguimos ter momentos de leveza e alegria durante a leitura. E isto me mostrou a genialidade da autora, que provoca no leitor os mesmos sentimentos os quais a protagonista enfrenta, ora inserindo-nos na história e ora nos deixando sedentos pela vontade de cuidar de Shell e livra-la de todos aqueles males.

Um livro triste com uma narrativa forte e difícil de digerir, mas excepcionalmente bem escrito, tornando seu processo de leitura algo emocionante e…enriquecedor. Indico muito, e imploro para que editoras brasileiras traduzam as outras obras da escritora. Siobhan Dowd merece – e muito – ser lida e apreciada por todos que tiverem a chance.

 

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“She had the characters, a premise, and a beginning. What she didn’t have, unfortunately, was time.”
—Patrick Ness, in the Author’s Note to A Monster Calls

“Ela tinha os personagens, a premissa e o início. O que ela não tinha, infelizmente, era tempo” (T.L.)

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